Diário de uma côrte (10)
18 de outubro – deitada na minha cama
Minha mãe percebeu que estava estranha no almoço e perguntou, na frente do meu pai, o porquê de eu estar daquele jeito. Comentei que tive um gabinete com o Joel de manhã e que estava pensando em tudo o que ele havia me dito. Meu pai levantou os olhos pra mim e voltou a baixá-los sem falar uma palavra.
Minha mãe continuou perguntando e eu falei que eram apenas uns problemas mas que o Joel foi muito simpático e que programaria uma reunião minha com eles.
Aí, pela primeira vez desde que saímos da igreja meu pai falou alguma coisa. Ele me olhou com a pior cara do mundo dizendo que o Joel já havia comentado do gabinete mas que ele havia rejeitado taxativamente e prometeu orar sobre o assunto para saber se essa era a vontade de Deus.
Minha mãe nessa hora virou bicho… Ela nunca havia discutido com meu pai na minha frente, nunca havia levantado a voz e nem contrariado meu pai desde que eu me entendo por gente. Ela sempre foi a maior praticante da submissão completa e integral, o que meu pai falasse era ordem em casa.
Dessa vez foi completamente diferente… Parecia que tinham substituído minha mãe e que colocaram outra no lugar.
Ela exasperada perguntava o porquê dele ter negado o seu direito em saber sobre esse gabinete, de como ele estava tirando a autoridade espiritual do líder da juventude de mim, do quanto ele renegava o direito meu e dela de nos posicionarmos mesmo sabendo que a decisão dele seria lei entre nós e, finalizou seu comentário, dizendo que ele estava se negando conhecer a filha e saber o quanto eu era especial.
Meu pai a confrontou dizendo que não queria me conhecer e que não confiava em mim por culpa da criação que minha mãe deu. Que ao invés de me criar com “vara” e disciplina, sempre fez minhas vontades e jamais ditou regras, para ele eu havia virado uma menina mimada e sem rédeas como muitas que ele criticava o comportamento na igreja.
Falou, também, que ele não tinha cara nem de aconselhar famílias com problemas com os filhos adolescentes pois sua esposa não foi capaz de educar a própria filha de pastor e isso dificultava muito seu trabalho como pastor da igreja.
Nesse momento eu comecei a chorar… Chorar como uma criança… As lágrimas jorravam com uma facilidade, escorrendo pelo meu rosto e molhando a mesa e o prato do almoço a minha frente. Senti que uma dor em meu coração estava a ponto de explodir a qualquer momento e se eu não chorasse tudo o que deveria, eu iria começar a berrar como louca dentro de casa.
Mesmo chorando pedi para me retirar da mesa e ir para o meu quarto… Minha mãe respondeu que era melhor mesmo deixá-los sozinhos enquanto conversavam e me deu autorização para vir pra cá.
E depois de uns bons 20 minutos chorando, aqui estou eu escrevendo e orando para que Deus tenha misericórdia da minha vida e que não permita eu ser motivo de discórdia entre meus pais. Eu nunca quis que eles brigassem, quando conversei com o Joel nunca imaginei que isso aconteceria.
Vou tentar falar com a Cris, pedir para ela orar por mim…
Quem sabe ela não tem alguma ideia do que eu devo fazer agora? Eu preciso de uma amiga agora, mais do que nunca.
18 de outubro – sentada na escrivaninha do meu quarto
Liguei para o celular da Cris mas só dava fora de área ou desligado, tentei mandar um sms, liguei para sua casa mas ninguém atendia. Como sempre, os pais dela devem ter decidido almoçar fora e ela, ou esqueceu de carregar o celular, ou deixou em casa carregando. Eu bem sei quantas vezes isso já aconteceu.
No meu desespero resolvi mandar uma mensagem de celular para o Marcelo… Vai que ele podia falar naquele momento. E não deu outra, na mesma hora ele ligou para o meu celular perguntando se estava tudo bem já que eu nunca havia mandado uma mensagem antes.
Expliquei tudo o que tinha acontecido, voltei a chorar tudo de novo e acabei abrindo todo o problema para ele.
Ele perguntou o que a Cristina costumava fazer, quando algo assim acontecia na minha família, para me acalmar. Comentei que essa era uma situação super nova pra mim, que sempre tive problemas em casa mas nunca havia chegado no caos total como agora, mas que sempre a Cris tentava me dar uma palavra de consolo, orava por mim e lia alguma coisa na bíblia que Deus falava ao coração dela.
A resposta do Marcelo foi encantadora e prestativa, além de muito sincera. Ele nunca havia comentado comigo sobre os problemas do pai ou o que passaram antes dele largar a bebida e se converter, mas hoje ele se abriu comigo como jamais havia feito com ninguém, segundo ele.
Quando ele era pequeno, seu pai sempre saía com os amigos para tomar umas cervejas, jogar conversa fora, e sua mãe sempre acompanhava, só que de 10 anos pra cá a coisa foi deteriorando e seu pai foi passando de algumas cervejas para muitas, de algumas saídas para várias, até que começou a beber todos os dias chegando muitas noites transtornado em casa e, como sua mãe cobrava mudanças muitas vezes as madrugadas eram para o Marcelo e o Eduardo cuidarem dos machucados que seu pai fazia nela.
Na manhã do dia seguinte era sempre a mesma coisa, milhares de pedidos de perdão, ressaca ao ponto de atrasar ou até não comparecer ao emprego… Parecia que uma coisa levava a outra, sempre apareciam desculpas para ele beber… A bebida fez seu pai perder tudo e sua mãe foi recorrer ajuda na igreja, por mais que lhe doesse apanhar quase todas as noites ela não queria denunciar o marido. Sua mãe amava seu pai e recorreu a Deus e a igreja por um milagre.
Depois de frequentar durante 3 meses uma igreja e das coisas cada vez parecerem mais e mais perdidas, sua mãe resolveu levar os filhos para ouvir da palavra de Deus que tanto confortava seu coração. Acabou, então, mudando para a igreja onde estão agora. Seu pai aceitou ir para conhecer e acompanhar os filhos, mas logo depois de sair da igreja foi para um bar encher a cara.
Nesse dia o Marcelo diz que lembra até dos detalhes… Seu pai chegou uma e pouca da madrugada, sua mãe como sempre, fingia que dormia mas estava em oração constante para que dessa vez começasse algo a mudar em sua vida. Como fazia desde alguns meses após frequentar a igreja, não mais cobrava e nem discutia com o marido sobre a bebida. Ela somente orava, fervorosamente.
Seu pai mais uma vez foi tentar sacudi-la e cobrar o porquê não o esperava mais chegar em casa e quando novamente foi levantar a mão para batê-la, Marcelo e Eduardo se colocaram na frente para apanhar por ela. Apanharam muito, coisa que seu pai nunca tinha feito com eles. Ele parecia transtornado, mas de repente como se algo fizesse acordar de um transe, caiu na real. Olhava assustado pra eles, olhava como se não estivesse entendendo o que estava acontecendo, caiu de joelhos e chorou como uma criança percebendo que seus filhos apanhavam no lugar da mãe sem derramar uma lágrima sequer.
A mãe deles entrou em choque, segurando seus filhos, olhando as marcas da mão do marido sem saber mais o que fazer.
Foi nesse dia que o pai dele fez sua primeira oração, não pediu perdão aos filhos e nem a esposa, apenas orou em alto e bom som… “Deus, Deus da minha esposa e dos meus filhos, se você realmente existe me tire dessa situação. Não prometo nada a Ti pois não tenho nada a Lhe dar, estou no fundo do poço e acabo de bater em meus filhos que tão amorosamente defenderam sua mãe de mim… De mim… Um monstro… Um monstro é isso que sou. Mas minha mulher nunca me abandonou e eu quero esse Deus que ela tanto fala e que é capaz de me ajudar a ser uma pessoa melhor para minha família.”
Sua mãe olhou para ele e seu irmão, se ajoelhou ao lado do marido e disse simplesmente “Ele ouviu você, Ele ama você mesmo que não acredite. Deus, Jesus Cristo, vai transformar nossa família… Eu creio no poder dos milagres, eu creio no poder da oração e eu creio principalmente no amor de Deus e no nosso amor para saber que tudo isso mudará.”
Marcelo me comentou que até hoje não é fácil ainda, mas que muitas coisas na sua família aos poucos começaram a mudar. Seu pai frequentava os alcoolátras anônimos, e tanto ele, quanto sua mãe e seu irmão procuraram grupo de apoio a família de alcoolátras. Nunca faltaram um culto desde então, mesmo quando Marcelo teve febre ele veio a igreja dizendo que a única coisa em que ele podia acreditar era em Jesus e nada mais, e que vir a igreja – no primeiro momento – foi mais por agradecimento a Deus pelos pequenos milagres que Ele operava dia após dia em sua família.
Nesse momento não era mais eu que chorava ao telefone, mas sim o Marcelo. Um choro de agradecimento do que propriamente de lamentação.
Como o Marcelo não conhece ainda muito da bíblia, disse a mim que o único versículo que ele conhece bem e de cabeça é “o choro pode durar uma noite, mas a alegria pela manhã”. E que eu viesse a crer nesse versículo pois era real, na vida dele era mais que real, era a promessa que Deus havia feito em seu coração e que cada dia mais ele via se cumprir em sua casa.
Fiquei atordoada com tudo o que ele me contava. Nunca tinha ouvido nenhum rapaz chorando, jamais imaginei o drama que ele vivia todos os dias, mas mesmo assim tinha forças para brincadeiras na igreja, me ajudar nos problemas e sorrir. Imagino o quanto deve ser difícil sorrir diante de tantas circunstâncias.
Ele orou comigo, perguntou se estava melhor…
Opa… Minha mãe acabou de bater na porta do meu quarto pedindo para eu me arrumar para a igreja pois já estava na hora de sairmos para o culto da noite.
Depois continuo…
Explore posts in the same categories: Conto
Tags: adolescente, batismo, batizada, côrte, cristão, diário, história, livro, relacionamento
You can comment below, or link to this permanent URL from your own site.
janeiro 9, 2010 às 6:41 pm
Sendo sincera com você, nem sei seu nome. Mas fiquei encantada com a sua forma de escreve e o com o seu conto; A muito tempo desejava ter uma literatura boa e de qualidade que mostrasse a minha realidade, colégio, igreja, e sem os preconceitos de quem não vive realmente isso. Parabéns, continue escrevendo, pois você tem um dom.